Domingo, 5 de Setembro de 2010

Leni Riefenstahl



Leni faleceu no dia 8 de Setembro de 2003 com 101 anos de idade. Houve quem lhe chamasse a cineasta do 3º Reich. Apesar de renegar a sua simpatia pelo Führer, acho que, fruto das circunstâncias de um tempo já passado, a cineasta foi de facto uma apoiante do regime nazi. Mas foi muito mais que isso: foi a maior cineasta e uma fabulosa fotógrafa do século XX, tendo revolucionado muitos dos conceitos estabelecidos na sétima arte da época. A sua biografia foi agora editada em Portugal pela Casa das Letras, num excelente livro escrito por Steven Bach. É altura para relembrar a sua filmografia, sendo que "O Triunfo da Vontade" e "Olympia" sairam recentemente em Portugal. Mais vale tarde que nunca...



A frágil senhora, vestida um pouco extravagante para a idade, não aparenta ter o passado de glória e queda, de aventuras e experiências únicas, quando simplesmente sai às ruas de Munique. A fragilidade, acentuada pela idade e talvez por ser mulher, esconde na verdade um mito em todos os aspectos. Condenada por uns, admirada por outros, independentemente de tendências políticas (diga-se de passagem), Leni Riefenstahl, a mulher que criou e lançou a estética na política, mais que isso, esculpiu com seus filmes o padrão estético do nazi-fascismo, filmes que serviram de porta-estandarte e contribuíram decisivamente para a popularização de Adolfo Hitler junto das massas.

É impressionante saber que a centenária senhora, cujos passos demonstram a insegurança que o tempo cuida de dotar qualquer ser humano, transforma-se quando tem uma câmera à mão e é capaz de dar mergulhos com 50 metros de profundidade. Mais que isso, Riefenstahl está nos próximos dias quebrando um recorde muito difícil de ser superado. No dia do seu centésimo aniversário será lançado o seu filme "Impressões sob as Águas" o que a torna a cineasta mais idosa a rodar um filme.

Mas o caminho de Riefenstahl inicia-se bem antes de sua fase mergulhadora. Mesmo bem antes de, à beira do mar, passear com Hitler, em 1932. Ela estudou dança e ballet na Academia de Artes de Berlim. Uma grave contusão impediu a carreira de dançarina. Não fosse isso talvez jamais tivesse feito outra coisa, "a dança era a minha maior fascinação" diz ela. Mas a fama veio quando, aos 24 anos, em 1926, se estreou como actriz principal no filme "A Montanha Santa" dirigido por Arnold Franck, que se tornaria seu marido e de quem se separou poucos anos depois.



Foi em 1932 que começou a fase que mais marcou sua vida. Foi também neste ano que deu início à sua carreira de cineasta, dirigindo "A Luz Azul", uma amostra do seu talento de direcção, edição e corte, bem como da sua capacidade artística para encontrar o ângulo ideal para transformar uma cena banal e simples em algo com carácter grandioso. Em meados de 1932, Riefenstahl presenciou um evento político no Palácio dos Desportos de Berlim. Era uma manifestação oficial do partido nazi, onde ela pela primeira vez viu e ouviu pessoalmente Hitler, um ano antes de sua chegada ao poder. Ela diz ter ficado absolutamente impressionada com o poder hipnótico que ele exercia. Não apenas isso, mas também a sintonia simbiótica entre ele e o público. Esse facto tornou-a curiosa em conhecê-lo de perto, sem maiores análises sobre os valores políticos que Hitler transmitia. Pouco depois disso, o encontro deu-se formalmente nas margens de uma praia no Mar do Norte, numa longa conversa. Hitler era um admirador de Riefenstahl desde o seu primeiro filme "A Montanha Santa" e no encontro revelou o seu desejo de que a jovem cineasta dirigisse um filme de cunho político favorável à causa nazi. Ela diz que não aceitou o convite e diplomaticamente explicou que somente dirigia filmes que a motivassem artisticamente, o que não seria o caso.

A resistência durou pouco. Segundo ela, para evitar o ostracismo artístico a que teria sido condenada, decidiu, após insistentes apelos do Führer, dirigir um documentário sobre o congresso nacional do partido realizado em Nuremberg, em 1933. "Vitória da Fé", um apoteótico documentário de 63 minutos, fundou não apenas uma nova fase para o fascismo, mas criou uma nova forma de propaganda que até hoje é tida como marco, copiada basicamente mesmo para peças publicitárias e revolucionava o estilo, conteúdo e forma do filme-documentário.

Sem montagem ou cenas preparadas, simplesmente com a disposição de 13 câmeras espalhadas estrategicamente, Riefenstahl conseguiu fazer das imagens do congresso de Nuremberg um evento fabuloso, com imagens espectaculares que definitivamente ajudaram na também espectacular ascensão do ditador. E começou a dar forma ao padrão estético que faltava aos nazis. Pela primeira vez, a política ganhava um perfil estético e um canal de propaganda moldado sob medida na área da imagem.

Em 1934 rodou o congresso seguinte do partido no documentário "Triunfo da Vontade" onde consolidou o seu inigualável talento. Foi, entretanto, com o seu filme "Olympia", película sobre as olimpíadas de 1936, que Riefenstahl se afirmou internacionalmente como cineasta, arrebatando diversos prêmios, entre eles o "Leão de Ouro" do Festival de Veneza. Baseado principalmente no culto e superioridade da beleza, em especial do ideal corporal do arianismo, Riefenstahl nega contudo que foi seu objectivo interpretar o culto fascista ao corpo ou a superioridade entre raças. Como prova ela cita as imagens de atletas negros como o recordista americano Jesse Owens. Apesar disso, o documentário, de duas partes, foi amplamente utilizado pelos nazis como propaganda ariana.



Com a perseguição a artistas, a condenação de obras como as do pintor Goya ou Van Gogh pelo regime nazi, Leni Riefenstahl diz ter começado a distanciar-se de Hitler. Era tarde! Após a derrocada do regime e do fim da guerra, Leni foi rechaçada até pelos que antes a elogiavam e estigmatizada como um dos símbolos do nazismo. Ainda que outros artistas tenham servido muito mais o regime que ela, a criatividade e o seu talento indiscutível colocavam-na no primeiro plano, ofuscando todo os outros.

Procurando o silêncio e processando quem a acusava - ganhou dezenas de processos -, Leni continuou o seu caminho, passou tempos na África junto de tribos nativas onde, com filmes e trabalhos fotográficos, tornou famoso o povo Nuba, tribo africana do Sudão. Numa de suas idas ao continente negro sobreviveu à queda do helicóptero em que viajava. Diz ter "Cinco Vidas", título do seu último livro fotobiográfico. Aos 73 anos, em 1975, descobriu o mergulho e a beleza do mundo subaquático. No Mar Índico realizou diversos trabalhos fotográficos e aos 100 anos lançou o seu filme "Impressão sob as Àguas".

Leni Riefenstahl é uma figura polémica. Para muita gente cometeu erros mas ninguém pode negar a volumosa energia e fibra que possuiu. Profissionalmente é uma lenda, mesmo para figuras acima de qualquer suspeita como Jean Cocteau, que, em 1952, afirmou ser um admirador, e para quem ela era um génio, ou mesmo figuras pop como o Rolling Stone Mick Jagger.

 
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